sexta-feira, 6 de junho de 2014

MAURO SHAMPOO, O ARTILHEIRO QUE NÃO FAZIA GOLS

Mauro Shampoo foi um menino pobre do Recife. Cresceu trabalhando como engraxate na praia de Boa Viagem, onde nos fins de tarde jogava peladas na areia. Ainda jovem aprendeu o ofício de cabeleireiro, que até hoje lhe garante um sustento digno. A grande paixão de Mauro Shampoo sempre foi, porém, o futebol.

Correndo atrás da verdadeira vocação, Shampoo jogou durante dez anos no time de seu coração, o Íbis Sport Club, reconhecido pelo Guiness como a pior equipe do mundo em todos os tempos. A epopéia de derrotas do Íbis começou no dia 15 de novembro de 1938, quando foi criado como equipe de futebol da fábrica Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco. Graças ao abnegado gerente da empresa, Onildo Ramos, o time da fábrica tranformou-se num clube profissional e adotou a ave sagrada do Egito - Íbis - como símbolo. Foi o time pelo qual torceu Miguel Arraes e teve em Mauro Shampoo o maior ídolo de sua história.

As estatísticas sobre o Íbis são imprecisas. Um levantamento feito em 2005 apontava 1064 jogos, com 137 vitórias, 145 empates e 782 derrotas. O saldo negativo era, então, de 2221 gols. Entre 1980 e 1984, com Shampoo no ataque, o time não conquistou nenhuma vitória. No campeonato pernambucano de 1983 foram inéditos 23 jogos e 23 derrotas.

Durante os dez anos em que foi o centroavante titular do Íbis, nosso herói marcou um único gol, em um jogo em que seu time saiu na frente do Ferroviário do Recife, sofreu a virada e perdeu por implacáveis 8 X1.

Quero crer que este gol isolado de Mauro Shampoo tem, para a história do futebol, uma dimensão lendária comparável ao milésimo gol de Pelé. Dez anos de carreira jogando no ataque e marcando um mísero tento, cristalino, legítimo, épico, que concentrou em um instante isolado toda a paixão que a bola pode despertar. Logo após marcar o gol, Shampoo declarou ter realizado a obra de sua vida e concretizado seu maior sonho; ele é, por isso, um sujeito que atingiu a plenitude.

Dizem os que testemunharam o feito histórico que nunca na história do futebol um gol foi comemorado com a euforia do tento de Mauro Shampoo. A vibração do centroavante e da equipe foi tanta que fez a comemoração do gol de Jairzinho, no lendário Brasil e Inglaterra da Copa de 70, parecer algo tão vibrante quanto uma procissão de Corpus Christi no interior de Minas Gerais.

Além de ter sido o maior jogador da história do Íbis, Shampoo virou também ator cinematográfico, no curta metragem "Mauro Shampoo, jogador, cabeleireiro e homem", de Paulo Henrique Fontenelle e Leonardo Cunha Lima. O título, aliás, reproduz a maneira como o próprio personagem se define.

Para conhecer a lenda basta ir a Recife e dar um pulinho em seu salão, onde o ambiente é decorado com mais de 500 fotos do Íbis. Ao contrário dos cabeleireiros tradicionais, onde a fofoca come solta e a mulherada põe as intrigas, venenos e capítulos da novela em dia, no salão de Mauro Shampoo o assunto sempre é o futebol. Para completar a história, o filho do homem , que se chama simplesmente Homed Thorpe, joga no Íbis e é centroavante. Seu maior ídolo é o pai.

O brasileiro Mauro Shampoo, o atacante que não fazia gols, é um homem feliz.

FUTEBOL DE MIUDEZAS

Entre os anos de 2007 e 2013, escrevi mais de setenta pequenos textos sobre futebol. Dentre eles, um detalhe comum: eu falava sobre clubes pequenos, jogadores perebas ou trágicos, goleiros frangueiros, times de várzea e similares. Miudezas bem distantes do padrão FIFA e de seus desencantamentos do mundo. 
 
Entendam isso como prova de uma simpatia enorme que tenho por aqueles que, pelos critérios do "fazer sucesso", não deram muito certo nas quatro linhas. É que no fundo eu sei que palmeira do mangue não vive na areia de Copacabana e quem nasceu para Mauro Shampoo não pode ser Pelé - e este que vos digita, camaradas, está mais para palmeira do mangue e ponta de lança do Ibis, podem crer.

Cantarei, portanto, neste blog lançado em tempos do Copa, os feitos dos miudinhos do futebol brasileiro. Republicarei textos antigos, devidamente reescritos, e riscarei assim mais um pontinho desse meu bordado de crônicas de encantamentos sobre o mundo de onde vim.
 
Eu falo dos miudinhos porque falar deles acaba sendo uma maneira mais marota, e encantada, de falar de mim.  
 
Está na rede o Miudinhos do Futebol Brasileiro.